escrever é reviver

Escrever como um retorno ao lugar onde alguma coisa finalmente fez sentido. Leva-se muitos anos para entender que um ser humano pode abranger ideias e sentimentos muito contraditórios ao mesmo tempo. E eles não estão separados; eles nem se seguem muito. apenas vivem em você. 

“

Talvez escrever seja isso: folhear a própria vida enquanto nos preparamos para a página seguinte. Esse é o combustível. Aquilo que me tira o sono e, curiosamente, me devolve os sonhos. Olhar para a essência da vida das pessoas. perceber o que acontece com elas ~ e comigo ~ e tentar guardar tudo em algumas centenas de palavras, uma fotografia, uma lembrança. O meu Bom Dia!

signature gold
Nathaly Santos
The story of

ah!!! então é isso?

tudo começou quando eu nasci.
[embora tenha levado muitos anos para perceber.]

Escrever é reviver. É voltar ao cenário de um instante em que, de repente, a vida pareceu se traduzir. Tem uma sensação estranha quando finalmente começamos a compreender o sentido de algumas coisas. uma mistura de alegria e tristeza, como se a descoberta trouxesse consigo também a lembrança de todo o tempo que levamos para chegar até ela.

Demora para entendermos que um ser humano pode carregar ideias e sentimentos absolutamente contraditórios ao mesmo tempo.

E eles não precisam se resolver.

Não vivem separados. Tampouco chegam educadamente, um depois do outro.

Simplesmente vivem dentro da gente.

Para descobrir o que amo, fazer aquilo que me parece incrível, compreender minhas confusões ou atravessar minhas tristezas e, ainda assim, continuar, aprendi a seguir a intuição.

tenho rituais que adoro cumprir.

E adoro quebrá-los também.

Assim, não me torno prisioneiro da construção dos meus próprios dias.

No fim das contas, sigo meu nariz. E foi seguindo esse caminho que nasceu “O Poder do Amor de Deus”.

Não exatamente como uma história sobre drogas. Nem apenas como uma história sobre fé.

Mas como o resgate da vida de um jovem ator e modelo que, em determinado momento, desapareceu dos palcos, das passarelas e dos cenários para começar a transitar pelas calçadas e ruas da cidade.

Ali, viveu intensamente.

Até a última gota.

O último trago.

Até que o corpo disse basta.

Depois de passar cinco dias desacordado, encontrou na imagem de um Deus muito particular ~ talvez um Deus só seu ~ uma maneira de se reconectar com a vida.

E sobreviver não lhe pareceu suficiente.

Era preciso compreender. Era preciso voltar aos lugares, às lembranças, às escolhas, às pessoas e aos abismos que o haviam levado até ali.

Era preciso escrever.

A partir dessa reconexão, sua vida ganhou outro propósito: transformar aventuras e desventuras, excessos, perdas, encontros e as dolorosas vias das drogas em memória.

E assim ele retorna a uma São Paulo que muita gente atravessa todos os dias sem sequer imaginar que exista.

Uma cidade escondida dentro da cidade.

Escreve sobre ela. Escreve sobre quem encontrou por lá. Escreve sobre quem foi.

E, talvez sem perceber, começa a escrever sobre quem ainda poderia ser.

Porque algumas vezes escrever é isso:

voltar ao lugar onde quase perdemos a vida para descobrir, finalmente, o que fazer com aquela que ficou.

a travessia

— Tudo começou quando eu nasci.
Toda história precisa de um começo. A minha começou em 1988, muito antes que eu pudesse imaginar quantas vidas caberiam dentro da minha.

— Quando o mundo virou palco.
Ainda criança, descobri os palcos, as câmeras e as passarelas. Entre trabalhos como ator e modelo, comecei a experimentar uma vida que parecia ter sido escrita para mim.

— Luzes, noites e excessos.
A cidade começou a mostrar outros cenários. O que era descoberta tornou-se intensidade; o que era intensidade, excesso. Aos poucos, desapareci dos palcos para ocupar outras ruas de São Paulo.

— Uma cidade dentro da cidade.
Vieram as noites, as calçadas, os encontros e as drogas. Conheci uma São Paulo que existe diante dos olhos de todos, mas que poucos realmente enxergam. Uma cidade escondida dentro da própria cidade.

— Até a última gota. O último trago.
Há momentos em que acreditamos estar vivendo tudo. Às vezes, porém, estamos apenas nos afastando de nós mesmos. Continuei até que meu corpo resolveu interromper a viagem.

— Cinco dias.
Passei cinco dias desacordado. Quando despertei, alguma coisa também acordou comigo. Sobreviver já não parecia suficiente. Era preciso descobrir por quê.

— O meu encontro com Deus.
Não encontrei respostas prontas. Encontrei uma imagem de Deus que fazia sentido para mim. E foi por meio dela que comecei, lentamente, a me reconectar com a vida.

— Voltar para compreender.
Era preciso revisitar lugares, pessoas, escolhas, lembranças e abismos. Não para viver tudo outra vez, mas para entender quem eu havia sido ~ e quem ainda poderia ser.

— Escrever para não esquecer.
As aventuras e desventuras começaram a virar palavras. As ruas ganharam nomes. As lembranças, páginas. Escrever deixou de ser apenas contar o que aconteceu e passou a ser uma maneira de compreender a vida que havia ficado.

— O Poder do Amor de Deus.
Trinta e três anos depois daquele primeiro começo, a história ganha um livro. Não para apagar o que passou. Nem para transformar queda em heroísmo. Mas para guardar a memória de uma travessia.

— Uma nova página.
O livro termina.
A história, não.

Voltar ao lugar onde quase perdemos a vida para descobrir, finalmente, o que fazer com aquela que ficou.

tudo na vida faz sentido quando a gente se dispõe a vivê-la. se você quer alegria, faz sentido. se quer tristeza, também faz. eu quero viver. por isso, faço da felicidade a minha busca de sentido. o sentido dela: a vida!
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Luze Azevedo
editor e contador de estórias
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